Após rejeição histórica que não ocorria desde o século XIX, presidente vê afronta política de Alcolumbre e decide entrar pessoalmente em campo para aprovar o chefe da AGU.
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| Lula diz que Jorge Messias continua a ser o melhor nome para ocupar uma cadeira no STF. Foto: RAFA NEDDERMEYER/AGÊNCIA BRASIL |
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já avisou a interlocutores e aliados nos últimos dias que tomou uma decisão firme: vai reenviar ao Senado Federal a indicação de Jorge Messias para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF). A informação, publicada inicialmente pelo jornal Folha de S.Paulo, mostra que o Palácio do Planalto escolheu o caminho do confronto político em vez do recuo.
Segundo relatos de bastidores, Lula passou a tratar o episódio não como uma derrota pessoal do atual advogado-geral da União, mas como uma afronta direta ao seu governo e à prerrogativa constitucional do presidente da República de escolher os ministros da Suprema Corte.
Articulação nos bastidores e o fator Alcolumbre
Lula verbalizou a disposição de insistir no nome de Messias em reuniões com ministros e auxiliares políticos no fim da semana passada. Entre os encontros estratégicos, destacam-se conversas com o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães.
Em outra frente, o ministro da Defesa, José Múcio, esteve com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), na última quarta-feira. O objetivo do encontro foi medir a temperatura e a disposição do comando da Casa em relação ao Planalto. Embora o tema das indicações ao STF tenha entrado na pauta, o nome de Messias não foi tratado diretamente.
No entorno presidencial, há uma convicção inabalável de que Alcolumbre atuou diretamente para derrotar Messias, ainda que o negue publicamente. O presidente do Senado defendia o nome do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) para a vaga. Diante disso, auxiliares de Lula avaliam que Alcolumbre não deve recuar e que a nova indicação se transformará em um verdadeiro teste de força institucional.
Lula "entra em campo" e descarta Plano B
Nessas conversas reservadas, Lula reafirmou que considera ter feito “a melhor escolha possível” e que não enxerga justificativa técnica para o veto ao chefe da AGU. O presidente também minimizou o risco de uma nova derrota e avisou que, desta vez, pretende "entrar em campo" pessoalmente, conversando direto com senadores da base e da oposição.
A decisão de insistir em Jorge Messias também sepultou as chances de uma alternativa, que chegou a ser debatida no Planalto:
- Pressão por uma mulher: Setores do PT e movimentos sociais aliados pressionaram pela indicação de uma mulher para o STF após a derrota de Messias.
- Por que a ideia perdeu força? Auxiliares argumentaram que abandonar o chefe da AGU agora consolidaria a narrativa de fraqueza política diante do Senado. Além disso, transformaria a nova indicada em um mero "plano B", um cenário considerado politicamente ruim.
A avaliação predominante no Planalto é clara: Lula prefere o risco de uma disputa institucional aberta a transmitir uma imagem de fragilidade e recuo diante do Congresso.
O peso da história e o receio de Messias
A rejeição de Jorge Messias pelo Senado no fim de abril foi um evento político tectônico. A Casa não enterrava uma indicação para o STF desde 1894, durante o governo do marechal Floriano Peixoto. O trauma fez com que parte dos governistas retomasse o forte mote de "Congresso inimigo do povo", enxergando uma atuação do Legislativo em confronto aberto com o Executivo.
Apesar do pragmatismo de Lula, o próprio Jorge Messias adota cautela. Interlocutores próximos ao advogado-geral da União afirmam que ele só aceitaria enfrentar uma nova sabatina no Senado caso haja total segurança de aprovação, buscando evitar o desgaste profundo de uma nova e histórica rejeição.
