Por Alechandre Viana

Aos 74 anos, a pesquisadora marajoara e fundadora do Cedenpa deixa um legado inestimável na luta antirracista e pela inclusão de quilombolas no ensino superior.

Faleceu em Belém, aos 74 anos, Zélia Amador, professora da UFPA e ícone do movimento negro no Pará. Foto: Divulgação

O estado do Pará se despede de uma de suas vozes mais potentes. A professora emérita da Universidade Federal do Pará (UFPA), Zélia Amador de Deus, faleceu nesta terça-feira (8), aos 74 anos, em Belém (PA). Reconhecida como uma das principais referências do movimento negro na Amazônia, Zélia foi pesquisadora em ciências sociais, ativista implacável e uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa).

Ao longo de sua vida acadêmica e militante, a professora atuou diretamente na defesa dos direitos das comunidades quilombolas e contra o racismo, sendo uma voz decisiva para a ampliação do acesso e da permanência de grupos historicamente excluídos do ensino superior público.

Homenagem e ancestralidade

No último dia 18 de agosto, a ativista recebeu uma homenagem em vida na universidade com o plantio de um baobá — árvore de extrema importância simbólica para diversos povos africanos. A UFPA destacou, na ocasião, que Zélia foi fundamental para a construção de uma instituição mais plural, inclusiva e comprometida com a igualdade racial.

Visivelmente emocionada no evento, a professora declarou: "Esse baobá representa muito para mim, porque fala de ancestralidade, de memória e daqueles que vieram antes de nós".

Presente na cerimônia, o reitor da UFPA, Gilmar Pereira da Silva, resumiu a grandeza da ativista: "Zélia é uma referência, um símbolo, uma entidade. Mas nunca deixou de cultivar as relações humanas, a amizade e o cuidado com as pessoas".

"Norteou o olhar"

A notícia de sua partida gerou forte comoção nos meios acadêmicos e sociais. A historiadora Janira Sodré, fundadora do Instituto Pretas e secretária executiva da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), definiu a professora como “insurgente”. Segundo Sodré, Zélia "nos ensinou a nortear o olhar sobre o país” ao dar protagonismo às mulheres da Amazônia Negra. "Será sempre bem lembrada por sua tenacidade e alegria", concluiu.

O professor e pesquisador Jonas Pinheiro reforçou a importância do trabalho de Zélia na implementação de políticas de ações afirmativas, como as cotas raciais e o processo seletivo especial quilombola. "Zélia Amador de Deus abriu caminhos para que nós, quilombolas, negros, indígenas e povos tradicionais, pudéssemos ocupar e permanecer na UFPA", destacou.

A cultura paraense também prestou reverência. A cantora e compositora Gaby Amarantos lamentou a perda em suas redes: "Obrigada por tudo professora, seus ensinamentos ficam conosco pra sempre!".

De Soure para a História

A trajetória de Zélia Amador de Deus é, em sua essência, uma história de resistência. Nascida em 1951, em uma fazenda de gado no município de Soure, na Ilha do Marajó, ela foi filha de uma mãe solteira de apenas 15 anos.

Ainda jovem, mudou-se com a família para a periferia de Belém. Criada em uma família de classe trabalhadora — a mãe era empregada doméstica; o avô, ex-vaqueiro no Marajó, virou operário da construção civil; e a avó era lavadeira —, a menina Zélia estudou em escolas públicas, onde sentiu na pele o racismo devido à sua cor e ao cabelo crespo.

Apesar das adversidades, um dos maiores ensinamentos de sua vida veio de casa: aprendeu com a avó a nunca baixar a cabeça e a impor sua presença em qualquer lugar que estivesse. E assim ela fez. Além de seu brilhante trabalho em prol dos saberes ancestrais e acadêmicos, Zélia quebrou barreiras institucionais, tornando-se vice-reitora da UFPA entre os anos de 1993 e 1997. Em 2019, o merecido reconhecimento oficial chegou com o título de professora emérita de Antropologia e Ciências Sociais.