Ex-presidente do STF e relator do Mensalão entra na corrida eleitoral, mas enfrenta forte resistência de Aldo Rebelo e lideranças da Democracia Cristã.


O cenário político nacional ganhou um novo e impactante capítulo. O ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, filiou-se oficialmente ao partido Democracia Cristã (DC) com o claro intuito de disputar o Palácio do Planalto. A filiação ocorreu de forma discreta no início de abril, cumprindo os prazos estabelecidos pela Justiça Eleitoral, mas o movimento já provocou um verdadeiro terremoto nos bastidores da legenda.

A chegada de Barbosa não foi bem recebida pela cúpula do partido. Grandes dirigentes da sigla e o atual pré-candidato oficial, Aldo Rebelo, já se posicionaram publicamente contra a movimentação.


Crise interna e "balão de ensaio"

A principal linha de atrito está na definição do candidato oficial da legenda. Em janeiro deste ano, a Democracia Cristã havia lançado a pré-candidatura de Aldo Rebelo à Presidência da República. Em nota divulgada neste sábado, Rebelo foi enfático ao afirmar que seu projeto está mantido, respaldado pelo compromisso da direção nacional.

"Candidaturas são projetos coletivos e não de grupos e interesses específicos", disparou Aldo Rebelo, que ainda classificou a articulação em torno de Joaquim Barbosa como um "balão de ensaio".

A rejeição a Barbosa ecoa em diretórios importantes. O ex-deputado federal Cândido Vaccarezza (ex-PT), atual presidente do diretório do DC em São Paulo, afirmou em entrevista à Folha de S.Paulo que o nome do ex-magistrado é "inapoiável".


Próximos passos e as bandeiras de Barbosa

De acordo com a assessoria do DC, uma reunião na próxima semana deve acertar os detalhes políticos e jurídicos dessa filiação, e a previsão é que uma entrevista coletiva seja convocada para esclarecer os rumos da sigla.

Pessoas próximas a Joaquim Barbosa relatam que ele adotará uma postura cautelosa. O ex-ministro pretende avaliar a receptividade de seu nome junto ao eleitorado e costurar possíveis alianças partidárias antes de formalizar a candidatura. O movimento repete a estratégia de 2018, quando Barbosa se filiou ao PSB com o mesmo objetivo, mas acabou desistindo da disputa.

Caso a candidatura prospere, os pilares da campanha de Barbosa já estão definidos:

  • Ética pública intransigente;
  • Combate a privilégios no topo do funcionalismo;
  • Uma profunda reforma do Judiciário.


O desafio da legenda e o histórico do candidato

O embate interno ganha contornos complexos diante da realidade da Democracia Cristã. Presidida pelo ex-deputado federal João Caldas, a legenda atualmente não possui representação no Congresso Nacional. Na prática, isso significa que o partido não tem direito a tempo de propaganda na TV e no rádio, além de não ter participação garantida nos debates televisivos — um obstáculo gigante para uma campanha presidencial isolada.

Por outro lado, o ativo político de Joaquim Barbosa é o seu histórico. Ele foi o primeiro negro a ocupar uma cadeira na mais alta Corte de Justiça do país, onde permaneceu por 11 anos (2003 a 2014). Sua figura pública foi projetada nacionalmente ao se tornar o relator do processo do Mensalão, julgamento histórico que resultou na condenação de 24 réus, incluindo figuras de peso da política nacional, como José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil do governo Lula.